segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Carta de amor




Querida filha



Por esta altura já deves ter sentido a minha falta, já não estou sentada no meu cadeirão de baloiço à janela como sempre me encontravas quando chegavas do trabalho e por isso estás a ler esta carta.
Desculpa já não poder ouvir o que fizeste durante o dia,como os meninos estão ou rir contigo de alguma anedota mais picante que te contaram no trabalho.
Mas vê as coisas pelo lado positivo, já não tens de me ajudar a arranjar todos os dias de manhã antes de ires para o emprego e não tens de pagar à D. Francisca para me vir cá dar o almoço.
Não chores minha querida, eu estou bem não me vás buscar, apenas quero que me visites, que não me esqueças ... espero não me tornar uma nuvem que passou por essa casa e desapareceu.
Deves te estar a perguntar como isto aconteceu, eu vou te contar.
À quinze dias, lembraste que vieram cá almoçar os teus filhos, pois bem aquele dia acordou o meu egoísmo, ouvi algo que me despertou desta dormência, a Sarinha virou-se para a mãe depois de me vir dar um grande abraço e disse:

-Ó mãe, agora que a avó podia vir passear com a gente,não pode por causa da vó Bi.
Nem me interessou mais nada, ensurdeci naquele instante, só aquela frase me interessava, como a minha bisneta tinha razão, como podia estar a ser tão egoísta? Desculpa minha filha, mas só quando ouvi aquela frase descobri o quanto peso para ti.
Não quero que te zangues com a Sarinha, muito menos com o Dr. Augusto que foi quem me arranjou o lar onde me encontro agora, pedi a ele sigilo profissional, foi impecável...antes de ir para o lar ele me levou num médico para ver se eu estava bem de saúde. E depois do médico me dizer que ainda vendia saúde, mais força me deu para fazer o que fiz.
Está na altura de viveres sem estares preocupada comigo, de saíres para onde quiseres, de namorares com o teu marido sem fechares a porta, de passeares com os teus netinhos e ires de férias para um sitio onde não seja necessário rampas de acesso.
Sei que todos me amam, e por isso não podia estar aí atrapalhar a vossa vida, quero que me recordem um dia como uma mulher de coragem , que aos 85 anos decidiu a sua vida para bem da sua família, por amor e apreço a tudo o que lhe deram.
Não sintas isto como renuncia à vida,quero ainda viver muitos mais anos, estou lúcida como nunca estive, não estou louca.
Sabes que aqui temos cabeleireira, médico e vamos passear todos os fins de semana, já me disseram que no Natal se faz uma peça de teatro para a família vir ver, sei que ainda estamos em Março, por isso mete no teu telemóvel um recado para não te esqueceres de pelo menos no Natal vires ver a tua mãe artista.
Não quero que deixes de sair ao fim de semana para me vires visitar, vem só quando puderes, e quero que saibas que o que estou aqui a dizer é tudo de coração e verdadeiro.
Fiz isto assim porque sei que não me deixavas vir, e por isso tive de provar o meu amor por vocês desta maneira.
Fala com o Dr. Augusto, não sei bem a morada do lar nem o telefone e quando lá fores não quero choros e sim sorrisos.
Dá muitos beijinhos a todos os meus netos e bisnetos, diz-lhe que a vó Bi os ama tanto que não tem medida, e que se eles quiserem ir lá visitar há um jardim muito bonito para brincarem.

Depois a gente se fala melhor meu amor. Amo-te tanto



tua mãe
Beatriz
(escrito por mim)
Enviar um comentário