terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uma mulher

Era uma menina traquina, cheia de vida tinha olhos e cabelos castanhos e adorava brincar.Vivia com os seus pais e avó materna, nunca conheceu o marido daquela avó tão querida. Falavam dele como se fosse um grande senhor, ligado ás artes do teatro do seu bairro. Ela adorava saber tudo sobre aquele senhor, chegava a pensar que o tinha conhecido na realidade.
Moravam num bairro de Lisboa, sem grandes condições mas eram felizes, e a menina cresceu num ambiente de harmonia e felicidade.
Os anos passam por todos nós, e não deixaram de passar também pela menina irrequieta e franzina.
Mudaram de casa, uma grande mudança na vida dela, ela sabia que nada ia ser igual , e tinha algum receio. Ia fazer a 3ª classe numa escola nova, com meninos e meninas...que estranho ia ser! A escola antiga era só de meninas, como seriam os rapazes a brincar no recreio com elas ? Será que se ia sentar ao lado de algum rapaz? Que horror...nunca na vida, foi das primeiras a entrar na sala e logo escolheu um lugar ao lado de uma colega.
Para grande surpresa e alegria, naquela escola não se usavam os velhos métodos de ensino, e isso era óptimo, assim quando desse algum erro , já não levava réguadas. Ela estava nas nuvens , afinal o medo passara e a menina fez novos amigos, até tinha um quarto para ela e para o irmão, outro para a avó e outro para os pais,havia uma cozinha grande, uma sala e duas casas de banho ... e dentro de casa!!! Não precisavam de tomar banho de alguidar, que bom era estar naquela casa, pensava ela todas as noites.
Passado um ano, a menina teve de ir para casa de uns parentes, os pais diziam que era melhor para ela, eles não tinham instrução para a ajudar nos estudos e apesar de lhe ter custado deixar a família, foi para casa dos seus padrinhos que tinham uma vida mais desafogada financeiramente. Até iam para o estrangeiro nas férias, e isso era sinal de estarem bem na vida, depois também gostava deles e tinha uma prima que se dava muito bem, ia ser divertido.
Um tempo depois, abateu-se sobre aquela menina um sofrimento atroz, a avó querida morreu. Ela não sabia lidar muito bem com aquela situação, afinal era ela que dizia: " Ó rapariga tu pareces um furacão, quando passas por mim, a correr até me viras! ". Quem lhe iria agora dar aqueles miminhos que só os avós sabem fazer? Naquele dia nem chorou, parecia que tudo estava sem sentido, aquela senhora não merecia morrer, era tão querida. Nos dias seguintes chorou sem parar, era uma dor tão grande, tão forte que parecia que ia morrer também.
Claro que o tempo cura a dor, mas a menina nunca se esqueceu da avó e ainda hoje fala muito com ela.
Tantas primaveras passaram, que a menina já não era menina, era uma jovem, andava no liceu e tinha muitos amigos, dava-se bem com toda a gente, alegre, extrovertida e sempre pronta a ouvir um amigo.
Cheia de sonhos, pensava em ser educadora infantil ou psicóloga, mais tarde ainda pensou ser terapeuta da fala, mas os estudos é que era uma chatice... ela não gostava muito de estudar, coisa de jovens, os familiares diziam : "Olha que mais tarde vais te arrepender!".
Mas ela era jovem , feliz e contente com a vida, ia lá pensar nisso de trabalhar? Nisso pensaria mais tarde, há sempre muito tempo na cabeça dos jovens e ela não era excepção.
Não era rapariga de muitos namorados , fazendo bem as contas tinha tido três namorados, um quando tinha 9 anos, o outro com 13 e o mais recente com 17, e coisas sem importância de maior, ainda não tinha encontrado o seu príncipe encantado. Ela até já pensava que para ela o príncipe se tinha perdido, mas não, mais depressa do que ela julgava o príncipe dos seus sonhos estava a chegar. Não vinha num cavalo branco, muito menos num coche de ouro, este viria de barco... até que é romântico!
Esse dia chegou, ela sentiu uma atracção tal por aquele rapaz, que nem às amigas ela sabia explicar porquê. Passaram uns meses e como estava previsto começaram a namorar. Trocavam juras de amor, beijos ternos e longos, amaram-se como nunca tinham amado ninguém antes.
Namoraram uns anos e acabaram por casar, a menina era agora uma mulher, ainda mais feliz do que alguma vez tinha sido, aquele amor era tão imenso que não tem grandeza neste mundo que quantifique esse sentimento.
Trabalhavam os dois, faziam uma vida em paz em amor e harmonia, como qualquer casal deve ter quando tudo corre dentro da normalidade.
Chegara o momento da verdade, o momento de provar a ela própria que ia dar tudo de si, tudo o que ela tinha aprendido durante toda a sua vida, ia ser mãe.
Não precisaram de muito tempo para se aperceberem que aquela menina era a luz que iluminaria o amor deles para o resto da vida, e era a ela que tinham de ensinar todos os valores que tinham aprendido até ali.
Como mulher e mãe, optou por ficar em casa, ia ser mãe e esposa a tempo inteiro, nessa altura nem pensou nela própria, como podia deixar a filha e o marido em casa com o trabalho que a consumia todo o dia, serões, fins de semana? O amor da sua vida deu-lhe todo o apoio e ela fez o seu papel como ninguém mais o podia ter feito, pensava ela, vou ser a melhor mãe e esposa do mundo.
Nasceu mais uma princesa uns anos depois, a família estava completa, diziam eles que tinham «fechado a loja». Outro grande desgosto se abateu sob esta mulher, a morte de seu pai, o primeiro homem da sua vida não podia ter morrido num acidente drástico, mas a vida é madrasta e com esta mulher já tinha sido duas vezes. Tudo se ultrapassa, e com a ajuda da família tudo se consegue.
A vida não estava para grandes avarias, mas as princesinhas como eles as chamavam cresciam felizes e com muito amor.
A grande mulher desta história, continuava firme, amada e feliz de ver a sua família crescer e nem por um momento sequer pensava primeiro em si. Fatos para o marido que trabalhava, sapatos para as meninas que estavam a crescer, roupinhas da moda como elas gostavam, era amada e acarinhada e sem se aperceber deixou de se cuidar, sempre tinha sido uma pessoa simples, nunca tinha sido uma mulher de se pintar muito, nem tão pouco usar saltos muito altos, mas quando saía gostava de vestir qualquer coisa diferente, mas com esses anos de entrega esqueceu-se de si própria.
O marido sempre a apoiou, sempre a amou, mas ela é que já não se amava.
As crianças crescem, e a grande mulher esqueceu-se disso.
Hoje ela ainda está a tempo de mudar, de pensar nela em primeiro lugar, e apesar de não lhe ser fácil acho que ela vai conseguir dar a volta, afinal esta história é o retrato de muitas mulheres com os filhos criados.
Mulheres que chegam a entrar em depressão de se sentirem inúteis na sociedade. Como podem pensar assim? Elas dão um grande contributo à família, à sociedade e ninguém lhes dá valor, por vezes nem os maridos lhes dão o devido valor.
Mas há uma coisa de que esta mulher tem e que lhe dá uma grande força para seguir em frente, o grande amor do seu companheiro de vida.
E por isso eu sei, esta mulher vai ultrapassar tudo isto.


escrito por mim
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